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A segunda chance de um livro abandonado

por Maria Inês Vilanova · 12 de julho de 2026 · 7 min de leitura

Todo leitor tem um: aquele livro que começou com vontade e parou na página 80. Ficou na mesa de cabeceira, virou marcador de página, foi para a estante com o lençol da vergonha.

O meu era 'A Paixão Segundo G.H.', de Clarice. Comecei em 2022. Parei. Voltei em 2023. Parei. Em 2026, li inteiro em quatro dias.

O que mudou não foi o livro. Fui eu. Três anos antes, eu queria que Clarice dissesse algo. Agora, eu deixei Clarice dizer — sem esperar o quê.

Há uma forma de ler que se parece com caminhar de volta para casa: não há destino, só o gesto. A leitura que falha aos 20 anos pode ser a leitura certa aos 30, só que em outra chave.

A tentação é culpar o livro. 'Não é para mim.' Às vezes é verdade. Mas, com frequência, é o leitor que chegou cedo demais. A obra esperou. O leitor não.

Concilio agora três cadernos de títulos abandonados, com a data da última tentativa. Quando volto, marco o intervalo. Quatro anos, sete anos, doze. Cada volta é uma releitura de si.

Há quem defesa o descarte sem culpa. Leitor não deve nada a livro. Verdade. Mas há prazer específico na segunda chance — o de descobrir que o leitor cresceu, mesmo sem perceber.

Por isso minha lista de abandonados não é cemitério. É sementeira. Cada título espera o leitor que ele ainda vai encontrar.

escreve sobre leitura para a Joluna.