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Diários que não são para publicar

por Maria Inês Vilanova · junho de 2026 · 6 min de leitura

Susan Sontag queria que seus diários fossem publicados. Quando foram, houve quem dissesse que ela não merecia ser lida assim. A questão não é Sontag. É o gênero.

Diário é texto escrito para um leitor — o próprio autor, num futuro às vezes próximo, às vezes distante. Não é escrito para estranho. Quando vira livro, muda de natureza.

O leitor de diário publicado está sempre num lugar incômodo. Como alguém que abre gaveta alheia e encontra algo que entende apenas pela metade.

Maria Inês Vilanova leu três diários póstumos em 2026. Um de escritor (importante, melhorado pela edição). Um de pessoa comum (publicado por afeto, sem pé nem cabeça literária). Um de pensador (magro, mas essencial).

O diário do escritor ganhou com curadoria. A família e o editor cortaram, ordenaram, contextualizaram. Virou obra póstuma. Não é mais diário — é livro que nasceu de diário.

O diário da pessoa comum talvez não devesse ter saído. Afeto não é critério editorial. Publicar para homenagear é Publicar pela razão errada.

O diário do pensador funciona porque o autor, em vida, já trabalhava com fragmento. O público não rouba intimidade — estende o método.

Conclusão provisória: nem todo diário deve ser publicado. Nem todo diário publicado merece leitor. Mas os que merecem — esses ensinam mais sobre escrita do que muitos tratados.

escreve sobre leitura para a Joluna.